Capítulo I
A primeira tempestade de verão que caiu sobre a cidade de Dimbletown nos começos de julho, por volta das 11 horas da noite, foi particularmente violenta. Num dos bairros do subúrbio, onde os bueiros já estavam alagados, um cartaz que se encontrava afixado num dos postes de iluminação, no qual se via a fotografia de uma jovem mulher e se lia "Priscila Wagner, desaparecida", descolou-se abatido pela chuva e, com o sopro do vento, resvalou para a beira da calçada, onde foi tragado pelas águas que desciam em correnteza pela rua, formando inundações.
Naquele momento, um relâmpago estralou riscando os céus e o estrondo de um trovão se fez ouvir por toda a parte norte da cidade. Aquela noite iria ficar na memória da detetive Jessica Loren, que, de plantão na divisão de homicídios do Departamento de Polícia de Dimbleton, teve de atender a um estranho telefonema.
Registremos o fato: a voz que se fez escutar do outro lado da linha não era mais do que um ruído gutural que de longe recordava a fala de um ser humano. Além disso, o aparelho telefônico emitia um chiado persistente, tal como um chuvisco eletrônico que fazia eco ao temporal que caía e às descargas elétricas que cortavam os ares como adagas de luz. A interferência na ligação ajudou a reforçar a entonação sombria daquela voz, que articulou as seguintes palavras:
- Escute-me com atenção, pois serei breve. Não peça para me identificar, meu nome não importa; tenho apenas uma informação que é de interesse da polícia e não gostaria que a denúncia que vou fazer aqui fosse negligenciada. A senhora me ouve bem? Excelente. Irei lhe passar umas coordenadas e preciso que uma viatura seja enviada ao local ainda esta noite.
Enquanto isso, não muito longe dali, estava uma radiopatrulha estacionada numa das partes menos iluminadas do bairro, onde os quarteirões eram atravessados por escuros e fétidos becos e não raro se verificavam pelo chão sacos de lixo rasgados pelos cães vira-lata à cata de restos de comida. O carro tinha os quatro pneus cobertos pela água lamacenta e recebia de cheio em sua capota as fortes gotas do temporal que precipitava dos céus e que prometia continuar a cair, com o avanço da madrugada. Subitamente, deflagrou-se uma ventania, o ribombo de nova trovoada explodiu das alturas e o clarão de outro relâmpago despencou das nuvens espessas atingindo um para-raios que ficava nas imediações. O barulho foi ensurdecedor.
Não obstante, no interior do veículo, um dos dois tiras que faziam ronda naquela noite tirava um tranquilo cochilo sob o banco do motorista, enquanto que seu parceiro de turno, sentado no banco ao lado, segurava aberto em suas mãos um exemplar da Bíblia e lia com atenção um dos livros do Antigo Testamento. Nem um nem outro pareciam incomodados com a borrasca que caía lá fora e não davam o menor sinal de esforço no grau de concentração que punham em suas respectivas "ocupações".
Os dois rapazes pertenciam ao esquadrão de base da polícia municipal de Dimbleton. O que aproveitava a pausa proporcionada pela chuva para descansar respondia pela alcunha de Mike, Michael Thompson, como constava no seu distintivo. Este aparentava 20 e poucos anos, tinha a tez morena, cabelos crespos e ombros largos e fortes; a farda ajustada sob seus braços e seu peitoral sugeria uma rija musculatura adquirida à base de muita frequentação à academia do quartel militar, onde treinava. O que lia as escrituras, por sua vez, respondia pelo nome de Thomas Clarke: era um rapaz magro, de faces pálidas e aparentava ter a mesma idade que seu colega. Thomas combinava suas leituras da Bíblia com estudos de psicologia criminal e tinha por hábito consumir bastante literatura investigativa, pois, de fato, uma das metas que tinha para o futuro era formar-se em psicologia criminal e fazer carreira na forense.
Mike era de sono fácil e já começava a roncar quando uma chamada do rádio transmissor fê-lo despertar de repente. Thomas já tinha o aparelho na mão quando, do outro lado da linha, fez-se ouvir a voz da agente Loren:
- Agentes Thompson e Clarke? Vocês estão na linha?
- Positivo, agente Loren. Aqui é o agente Clarke. Estamos na escuta.
- Continua chovendo por aí?
- Que nem o inferno, agente. Resolveu cair o oceano Atlântico inteiro em Dimbleton esta noite. - Tomou a palavra o cabo Thompson.
- O dilúvio de Noé, agente, uma péssima hora, mas acabo de receber uma denúncia urgente e preciso que alguém se encarregue da averiguação.
- Positivo, agente. Do que se trata?
Respondeu Clarke de pronto, que não era de reclamações na hora de "pegar no trampo".
- Atendi a uma ligação anônima que deu-me a entender que seguindo certas coordenadas pela autoestrada, fora da cidade rumo noroeste, vamos esbarrar com o galpão de uma velha usina abandonada onde encontra-se uma mulher que, aparentemente, fora raptada há 40 dias e que é tida desde então como desaparecida.
- Você fala de Priscila Wagner, agente, a médica?
- Tudo indica que sim, embora a voz que me falava ao telefone não tenha mencionado nomes. Pois então, preciso que vocês verifiquem a procedência dessa informação, o tempo está horrível, mas não temos escolha. Posso deixar essa tarefa em suas mãos?
- Um momento, agente ... - Interveio Mike: - Não é o caso de mandar um helicóptero? Não sabemos se será possível chegar ao local de carro com essa chuva. Há incidência de enchentes nessa região?
- A esta hora e com o tempo que faz, acho difícil conseguir um helicóptero. Mas acabei de verificar: não se tem muitos registros de alagamento envolvendo aquela parte do município ...
- Perfeito, agente. Pode deixar o caso sob nossa responsabilidade, vamos mantê-la informada, de toda maneira, durante o trajeto até lá. - Atalhou o agente Clarke.
Com as luzes de sirene ligadas, o auto já estava a caminho, quando a agente Loren lembrou-se de deixar Mike e Thomas advertidos:
- Rapazes, não esqueçam de tomar todas as precauções e não hesitem de pedir reforços se parecer necessário, a pessoa com quem falei ao telefone é no mínimo suspeita. Envio-lhes a gravação, reparem bem nessa voz, não parece saída de um filme de terror?
- Estou relendo aqui o caso da doutora Wagner. Não se tem certeza de que foi um sequestro, já que não houve da parte do suposto "sequestrador" nenhum pedido de resgate.
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